Quem foi José Júlio? A Vida e o Percurso do Primeiro Matador de Toiros de Vila Franca de Xira (1935-2021)
José Júlio (1935-2021) foi um dos maiores toureiros portugueses de todos os tempos e uma das figuras mais importantes da história tauromáquica de Vila Franca de Xira.
Bibliografia de José Júlio - A Vida e o Percurso do Primeiro Matador de Toiros de Vila Franca de Xira. José Júlio Venâncio Antunes foi muito mais do que um toureiro. Foi uma das grandes figuras da tauromaquia portuguesa do século XX e um dos homens que levou o nome de Vila Franca de Xira às mais importantes arenas de Portugal, Espanha e de outros países. Primeiro matador de toiros natural de Vila Franca de Xira, construiu uma carreira marcada pela arte, pela coragem e por uma enorme dedicação ao toureio a pé.
José Júlio nasceu a 31 de janeiro de 1935, em Vila Franca de Xira. Era filho de Júlio Antunes, bandarilheiro profissional, e tinha também ligações familiares ao mundo dos forcados. Pelo lado da família, encontrava-se ainda ligado a Venâncio, conhecido forcado do Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira. Desde muito cedo, portanto, cresceu num ambiente onde a tauromaquia fazia parte da própria vida.
A infância, porém, não foi fácil. José Júlio perdeu o pai quando tinha apenas quatro anos, vítima de um acidente de motorizada. Com a mãe doente, acabou por ser criado pelos seus tios, pais do escritor Alves Redol. Apesar das dificuldades, a paixão pelos toiros surgiu muito cedo. Ainda criança, brincava aos toureiros com outras crianças e chegou a aproximar-se de ganadarias, alimentando o sonho de um dia entrar numa arena como profissional.
1951 - O início do sonho
Aos 16 anos, José Júlio deixou Vila Franca de Xira e rumou à Golegã, onde ingressou na Escola de Toureio dirigida pelo mestre Patrício Cecílio. Foi ali que começou verdadeiramente a sua formação taurina.
Na escola encontrou outros jovens que viriam também a marcar a história do toureio português. A disciplina, a técnica e a aprendizagem dos diferentes momentos da lide ajudaram a formar o toureiro que José Júlio viria a ser.
1954 - 1956 - As primeiras apresentações
A documentação municipal refere uma primeira apresentação pública em Vila Franca de Xira, em 1954, num festival de beneficência a favor da Misericórdia. Outras fontes especializadas apontam para uma estreia pública no final da temporada de 1955, no Cartaxo.
O que está documentado é que, em 1956, José Júlio começou a afirmar-se nas principais praças portuguesas. A 10 de abril de 1956, vestiu pela primeira vez o traje de luces, em Santarém, e nesse mesmo ano apresentou-se também no Campo Pequeno, em Lisboa.
A sua evolução foi rápida. José Júlio não demorou a deixar de ser apenas uma promessa para se transformar num dos nomes mais respeitados do toureio a pé português.
1959 - Madrid e a alternativa
O ano de 1959 seria decisivo.
A 24 de setembro, José Júlio apresentou-se como novilheiro na monumental praça de Las Ventas, em Madrid, uma das arenas mais importantes e exigentes do mundo taurino. A sua atuação ficou marcada por um feito histórico: tornou-se o primeiro matador de toiros português a cortar uma orelha naquela praça, segundo a Plataforma Tauromaquia Património.
Poucas semanas depois, a 11 de outubro de 1959, chegou um dos momentos maiores da sua carreira: recebeu a alternativa na Praça de Toiros de Saragoça, em Espanha. O padrinho foi Manuel Jiménez Moreno, “Chicuelo II”, tendo Gregorio Sánchez como testemunha. José Júlio tornava-se oficialmente matador de toiros.
1960 - A confirmação em Madrid
No ano seguinte, em 16 de maio de 1960, confirmou a alternativa em Madrid, consolidando o seu estatuto entre os grandes nomes do toureio a pé.
A partir daí, José Júlio passou a atuar regularmente em grandes praças. Portugal, Espanha, França e países da América Latina conheceram a sua arte. Foi considerado um toureiro completo, destacando-se particularmente pela sua capacidade técnica e pelas suas prestações nos diferentes terços da lide.
1963 - O grande triunfo de Sevilha
Um dos capítulos mais memoráveis da carreira aconteceu em 1963, na Feira de Sevilha.
Perante toiros da lendária ganadaria Miura, José Júlio alcançou um enorme triunfo no primeiro toiro, cortando duas orelhas e dando duas voltas ao ruedo. A imprensa espanhola distinguiu a sua atuação com o prémio “Orelha de Ouro”.
Foi um momento de enorme significado: um toureiro de Vila Franca de Xira conquistava reconhecimento numa das praças mais emblemáticas da tauromaquia mundial.
1966 e 1970 - Reconhecimento em Portugal
O seu prestígio também foi reconhecido em Portugal. José Júlio recebeu o Prémio Bordalo, atribuído pela Casa da Imprensa, na categoria de Tauromaquia, nos anos de 1966 e 1970.
Durante a década de 1970 continuou a ser uma das grandes figuras do toureio português. Segundo o Museu Municipal de Vila Franca de Xira, ao longo da sua extensa carreira chegou a dar lide a mais de dois mil toiros.
1977 - Um momento histórico na Palha Blanco
Em maio de 1977, José Júlio participou naquela que ficou registada como a última corrida de toiros de morte realizada na Praça de Toiros Palha Blanco, em Vila Franca de Xira. A arena da sua terra natal esteve assim ligada a um dos momentos históricos da sua carreira e da própria tauromaquia portuguesa.
1989 - O adeus às arenas
Depois de décadas dedicadas ao toureio, José Júlio encerrou oficialmente a sua carreira em 5 de outubro de 1989, em Vila Franca de Xira. O seu corte de coleta aconteceu, simbolicamente, na Palha Blanco, a praça que tantas vezes testemunhara os seus triunfos.
Mesmo depois da retirada, nunca abandonou verdadeiramente o mundo dos toiros. Continuou ligado à tauromaquia, participando em festivais e transmitindo os seus conhecimentos às novas gerações.
2009 - Cinquenta anos de alternativa
Em outubro de 2009, José Júlio celebrou os 50 anos da sua alternativa na Palha Blanco. Foi descerrada uma placa comemorativa, numa homenagem à carreira de um homem que se tornara inseparável da história tauromáquica de Vila Franca de Xira.
2016 - O reconhecimento da sua terra
Em 2016, durante as Festas do Colete Encarnado, Vila Franca de Xira voltou a homenageá-lo através da exposição “É de Vila Franca e chama-se José Júlio”, dedicada à sua vida e carreira. A iniciativa recordou a dimensão nacional e internacional do percurso do matador.
2019 - O busto em Vila Franca de Xira
A 2 de fevereiro de 2019, foi inaugurado junto ao Mercado Municipal de Vila Franca de Xira um busto de José Júlio, da autoria do escultor espanhol Alberto Germán.
A homenagem simbolizou o reconhecimento da cidade ao homem que foi o primeiro matador de toiros de Vila Franca de Xira e que levou o nome da terra ribatejana às grandes arenas.
29 de janeiro de 2021 - A despedida
José Júlio morreu a 29 de janeiro de 2021, no Hospital de Vila Franca de Xira, vítima de Covid-19, apenas dois dias antes de completar 86 anos.
A sua morte encerrou uma vida de quase nove décadas, mas não apagou a sua presença na memória de Vila Franca de Xira.
José Júlio deixou uma marca profunda na tauromaquia portuguesa. Foi um artista das arenas, um homem formado entre a tradição ribatejana e os grandes palcos internacionais, e um toureiro que nunca esqueceu as suas raízes.
Nasceu em Vila Franca de Xira, conquistou Madrid, triunfou em Sevilha, percorreu grandes praças e regressou sempre à sua terra.
Hoje, o seu nome continua ligado à história do toureio a pé português. E o busto junto ao Mercado Municipal permanece como uma homenagem silenciosa a um homem que fez da sua profissão uma forma de representar a sua terra.
Video de José Júlio na RTP a 1972.08.05 : Praça de Touros de Espinho
José Júlio morreu em 2021, mas para Vila Franca de Xira ficou para sempre uma parte da sua história.
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"A história continua a ser escrita. Voltaremos a atualizar esta página sempre que surgirem novos documentos, fotografias ou informações sobre o maestro, José Júlio."
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