Fotografias Antigas Comentadas da Festa do Colete Encarnado VFX em Vila Franca de Xira

Uma fotografia antiga é muito mais do que uma imagem. É um testemunho de uma época, um instante congelado que permite compreender como viviam os campinos, como evoluiu a Festa do Colete Encarnado e de que forma Vila Franca de Xira preservou as suas tradições ao longo de mais de nove décadas.


Largada de touros atravessam a Av. Pedro Vitor em direção á praça touros Palha Blanco

Foto de Reis Sousa de 1943 - Vida Ribatejana nº 1120 de 3 Outubro de 1943
Largadas de touros na Av. Pedro Vitor em Vila Franca de Xira



1952 - Cavaleiros atravessam a Ponte Marechal Carmona, Colete Encarnado
Foto: Carlos Tomé Ribeiro a 05/07/1952



Cavaleiros em charrete atravessam a ponte Marechal Carmona - Data ?


campino e touro na leziria

Campino a cavalo no campo diante de um touro - data ?


vista de vila franca em 1937

Fotografia de 1937 - Vista aéra de Vila Franca de Xira e Alhandra
Vida Ribatejana nº 775 / 777, Dezembro de 1937



1953, Jornal da Vida Ribatejana, Festa do Colete Encarnado


1934 jornal vida ribatejana colete encarnado

1934 - Jornal Vida Ribatejana 


"Em Vila Franca de Xira, a 1,2 e 3 de JUNHO de 1934, celebrava-se o Colete Encarnado:
É ele e são elas, são elas e as flores que hão-de ser quási tudo nestas festas. Por que são três elementos únicos e eternos da Natureza! Entre os forasteiros que nos visitarão, há de contar-se por algumas centenas o número dos estrangeiros que não deixarão escapar a ocasião de assistir a uma das mais típicas, a uma das mais características festas portuguesas. Toda a multidão que, nesta época veraneia nos Estoris nos visitará. Pode imaginar-se daqui o esplendor que as festas terão e a responsabilidade que o povo ribatejano cria, tendo como seus hospedes algumas das mais eminentes figuras estrangeiras. Ele saberá, como sempre, ser cortês e afável.
"Vila Franca vai reviver, entre a policromia florida das suas campinas verdejantes e o sol doirado deste começo de verão, o resplendor doutros tempos. São três dias em que a tradicional alegria do provo ribatejano, só comparada a garridice dos seus trajos e á franqueza que transborda do seu coração, vai saltitar esfuziante e ruidosa."

Vida Ribatejana Nº595/597, 1 de Junho de 1934


fotos antigas colete encarnado

Ano: 1954 - Festas do Colete Encarnado - Vida Ribatejana

Nesta galeria reunimos algumas fotografias históricas da Festa do Colete Encarnado, acompanhadas por comentários que ajudam a contextualizar cada momento e a descobrir pequenos detalhes que, à primeira vista, podem passar despercebidos.



Fotografia 1 - A primeira Festa do Colete Encarnado (1932)


1932 - Cartaz / Programa da 1ª Festa do Colete Encarnado em 1932

Esta imagem pertence aos primeiros anos da Festa do Colete Encarnado, criada em 1932 para homenagear os campinos e apoiar os Bombeiros Voluntários de Vila Franca de Xira.


"𝐂𝐨𝐥𝐞𝐭𝐞 𝐄𝐧𝐜𝐚𝐫𝐧𝐚𝐝𝐨, 𝟏𝟗𝟑𝟐

Conforme temos vindo noticiando, realiza-se nesta vila, nos dias 9 e 10 do mês proximo, a Festa do «Colete Encarnado», promovida pela direcção da Associação dos Bombeiros Voluntários desta vila, a favor do seu cofre. É grande já o entusiasmo por esta festa que, pela sua organização, ficará marcando entre as melhores que aqui se têm realizado.


O conceituado «Diario de Lisboa» veio ao encontro dos organizadores, pondo á sua disposição todo o seu valioso concurso. Esperam ainda os organizadores obter o auxilio dos lavradores da região e o do Sindicato Agricola desta vila, para que a Festa do «Colete Encarnado» se torne a mais brilhante possível e de forma a atraír a esta vila muitos «aficionados» e forasteiros.


O programa, que pode ainda sofrer alterações mas no sentido de se tornar ainda mais notavel, constará do seguinte:


𝐏𝐫𝐨𝐠𝐫𝐚𝐦𝐚:

Sabado, 16

- ás 18h00 horas, nas Córtes da Tapada da Castanheira, apartação de toiros, em que tomam parte 50 campinos, rigorosamente trajados.

- ás 19h30 - Espera de toiros, com a passagem do gado pelas principais ruas de Vila Franca.

- ás 21h30 - Grande jantar á ribatejana, no Celeiro da Patriarcal, com a seguinte ementa: Sopa á campina, com o seu raminho de hortelã; bifes de

«fiel amigo» com tomates; vitela brava assada no espeto e servida em tamanho natural; salada de tomates e feijão verde; arroz dôce com a respectiva canela; café e «bagaço» ; vinho tinto carrascão, tipo único; pão saloio. Durante o jantar realizam-se danças de fandango e verde-paio e bailes pela classe piscatória, havendo. tambem fados por Maria Albertina, Maria do Carmo Torres, Joaquim Campos, Ricardo Porfirio, Joaquim Pimentel, Carlos Freire e Victor Daniel, acompanhados á guitarra e viola, respectivamente, por Carlos Ramos e Miguel Ramos.

- ás 23h30 - Representação, pelo Grupo Cénico do Club Vilafranguense, da peça <A Sesta>, de Reis Sousa, com o seguinte desempenho: Maria Rosa, ceifeira, sr.ª D. Alda Cancio Tarracha; Antonio, abegão, sr. Domingos Poeira; Manoel, maioral, sr. Alves Redol; Martinho, o engeitado, sr. Alberto Malta ; Padre João, sr. José Maria Guedes Junior; Gafanhoto, sr. Joaquim Malta.Representação ainda do quadro regional da revista «Sem pés nem cabeça: — Senhor da Boa Morte».


Domingo, 17

— ás 17h00 - Ferra de novilhos e corrida de 4 toiros, em que tomam parte distintos amadores e aplaudidos artistas entre êles o estimado e jovem cavaleiro sr. José Bastos e Silva e o arrojado grupo de forcados, que tem por cabo o sr. Joaquim Franco.

- ás 21h00 - No Celeiro da Patriarcal, abrilhantado pela banda do Grémio Artístico Vilafranquense, arraial com bailes e descantes populares, Fados e guitarradas.


Os preços de entrada no Celeiro da Patriarcal são: 5$00, no sabado e 1$50 no domingo.


A direcção da Associação dos Bombeiros escolheu um lindo cartaz anunciador desta tipica festa. As mesas para a ceia do dia 9 podem desde já ser reservados no estabelecimento dos srs. Saul Rodrigues Leitão (Filhos) desta vila."

Texto: Vida Ribatejana nº493, 26 de Junho de 1932



É possível observar um ambiente muito diferente do atual. As ruas eram menos movimentadas, os edifícios tinham outra configuração e a organização era bastante mais simples, mas a paixão pelas tradições ribatejanas já era evidente.

Curiosidade: O programa da primeira edição decorreu apenas durante dois dias.



Fotografia 2 - O desfile dos campinos


desfile de campinos colete encarnado

1943 - Desfile de campinos com jose van zeller pereira palha colete encarnado 1943

Vida Ribatejana. N.º 1101-1112 (10/07/1943).

O desfile dos campinos sempre foi um dos momentos mais aguardados da festa perante centenas de pessoas a pé nas ruas e também gentes nas varandas.


Nesta fotografia destaca-se o traje tradicional, composto pelo barrete verde, camisa branca, colete encarnado, faixa, calças azuis e botas de cabedal. O pampilho acompanha naturalmente cada campino.


Este desfile continua a ser, ainda hoje, um dos maiores símbolos da Festa do Colete Encarnado.


Corrida de Campinos Colete Encarnado
1965 - Corrida de Campinos na Festa  do Colete Encarnado de Antigamente
Uma verdadeira viagem no tempo! ❤️ Esta fotografia mostra um Campino e muitos aficionados presentes. Uuma época em que a festa era vivida de forma muito diferente.

Reconhece o local?
Conhece alguém nesta fotografia?
Ou tem alguma memória desta época?
Quem viveu aqueles tempos?


Campinos na condução de touros junto à Ponte Marechal Carmona
1962 - Lavradores e campinos na condução de touros junto à Ponte Marechal Carmona
Autor, Fotografo: Carlos Tomé - Vila Franca de Xira VFX

Ao olhar para esta foto, o que salta logo, é, a imensidão de pessoas que está na ponte Marechal Carmona a assistir ao conduzir do gado pelos Campinos e Lavradores. É muita, muita gente.



Fotografia 3 - As antigas largadas de touros


1934 - Largadas de Toiros em Vila Franca (Vida Ribatejana)
Foto: Reis de Sousa

Nesta foto acima, é bem visivel o largo da Estação cheia de população até á actual churrasqueira Brilha, desde ruas, varandas e sotãos cheios de pessoas com gosto pelas largadas de toiros.


largadas de toiros touros colete encarnado antigamente
Ano ? - Largadas de toiros no Colete Encarnado de Vila Franca
Edição de ... C. Pereira


fotografias antigas largadas touros colete encarnado touro
1959 - Fotografia antiga das largadas de toiros do Colete Encarnado


" 𝐄𝐬𝐩𝐞𝐫𝐚 𝐝𝐞 𝐓𝐨𝐢𝐫𝐨𝐬 𝐞𝐦 𝐕𝐢𝐥𝐚 𝐅𝐫𝐚𝐧𝐜𝐚 𝐝𝐞 𝐗𝐢𝐫𝐚 (𝟏𝟗𝟓𝟗)


Manhã cedo já as ruas de Vila Franca se animam com muitos daqueles que nesse dia irão de abalada ver os toiros, vibrar com a sua veloz passagem e expandir, em gritos e acções, o seu gosto e apego pela Festa Brava.

O dia, que amanhecera nevoento, parece querer colaborar na alegria que a função promete, pois o Sol vai rasgando a neblina, dissipando-a em farrapos e, aqui e ali, já se vislumbra o azul do céu.

Há qualquer coisa que palra no ar, que ao forasteiro, aquele que pela primeira vez aqui vem, não passa despercebida. Palpita-se algo de sempre novo, qualquer coisa que foge ao comum e para a qual vibramos em anseios ora de desejo, ora de dúvida.

As ruas estão areadas; nas lojas já se colocam taipais ou balcões e nalgumas janelas estendem-se colchas, mantas ou, em primores de ornamentação, verduras e motivos do campo ou taurinos.

Há um ambiente de festa. O bulício cresce e, agora, ao ruído das gentes que avançam e confluem para as ruas do percurso, juntam-se pregões, notas musicais que alto-falantes atiram ensurdecedoramente para a rua e os sons estrídulos de um cornetim a anunciar a próxima corrida de toiros, a dessa tarde.

-𝐻𝑎́ 𝑓𝑒𝑠𝑡𝑎 𝑒𝑚 𝑉𝑖𝑙𝑎 𝐹𝑟𝑎𝑛𝑐𝑎!

São velhas como as coisas que o são, as esperas de toiros.

Têm um sabor de antanho, com ressaibos de um romantismo de aventura estas práticas de conduzir toiros.

Se o correr toiros é usança muito antiga, conduzi-los ao local onde vão ser lidados corre a par com a longevidade daquela.

Quase podemos dizer que uma mais não é que a sequência da outra. Não havia corrida de toiros ou simples toirada nesta ou naquela cidade, vila ou pequena povoação em que a espera não fosse integrada e aguardada com igual ansiedade e entusiasmo.

Era nas esperas que a habilidade e sagacidade dos condutores do gado mais se manifestava; era nas esperas que o criador dos toiros e o seu maioral tinham que patentear toda a sua argúcia para fugirem ao povo ou, na impossibilidade, conduzirem os cornúpetos de tal modo, com tal perfeição, que nem um só se tresmalhasse, que nem um fosse enxovalhado pelo primeiro valentão que, em arroubos de audácia, o citasse sacando-o dos cabrestos.

Faziam-se prodígios em que a coragem e a ousadia corriam parelhas com a paciência e a perseverança. Era difícil, em certas terras, levar um curro de toiros até à praça ou local onde iam ser lidados.

O maioral estudava o percurso se o não conhecia já: acordava num plano. Estabelecida a «táctica» a adoptar, distribuidos os condutores, recorria-se, por vezes, à presença de uns amigos sobejamente conhecidos como bons cavaleiros e melhores varas. Era mais uma ajuda.

Lá iam então de abalada por esses caminhos, sempre longe dos povoados, em percursos que tanto poderiam ser de escassas horas, como de dias.

Sempre que as circunstâncias obrigavam a atravessar qualquer povoação ou que nas suas cercanias havia que passar, o maioral redobrava de cuidados e precauções: punha-se em prática o sistema adoptado para os grandes momentos.

-𝑀𝑎𝑛𝑒𝑙, 𝑍𝑒́ 𝑒 𝑡𝑢, 𝑃𝑒𝑑𝑟𝑜, 𝑣𝑎̃𝑜 𝑝'𝑟𝑎 𝑐𝑎𝑏𝑒𝑐̧𝑎 𝑑𝑜𝑠 𝑡𝑜𝑖𝑟𝑜𝑠; 𝑞𝑢𝑒𝑟𝑜-𝑜𝑠 𝑏𝑒𝑚 𝑒𝑛𝑐𝑎𝑏𝑟𝑒𝑠𝑡𝑎𝑑𝑜𝑠: 𝑎𝑔𝑢𝑒𝑛𝑡𝑒𝑚 𝑏𝑒𝑚 𝑛𝑎 𝑓𝑟𝑒𝑛𝑡𝑒! 𝑂𝑙ℎ𝑒𝑚 𝑞𝑢𝑒 𝑒𝑠𝑡𝑎 𝑔𝑒𝑛𝑡𝑒 𝑒́ 𝑟𝑢𝑖𝑚! 𝑀𝑎𝑙 𝑟𝑎𝑖𝑜𝑠 𝑜𝑠 𝑝𝑎𝑟𝑡𝑎𝑚 𝑠𝑒 𝑎𝑙𝑔𝑢𝑚 𝑡𝑜𝑖𝑟𝑜 𝑒́ 𝑑𝑒𝑠𝑓𝑒𝑖𝑡𝑒𝑎𝑑𝑜.

E assim, com estes dizeres e outros, lá se dispunha a companha, e com mais ou menos trabalho, mais ou menos cuidado, se chegava ao destino.

O que se passara pelo caminho nada era comparado com o que estava para vir. Sabla-se já, pols havia sempre uns alvissareiros, que um grupo de brincalhões comprara bombas e que um outro tinha andado a arrebanhar quanta panela ou tacho velho pudera encontrar; sabia-se, também, que Fulano e Beltrano muito sabidos e adestrados nestas andanças haviam apostado em como tirariam um toiro, gabando-se de antemão das façanhas que levariam por diante.

Por outro lado, os que iriam por gosto ou por ganha-pão da vida lidar os hastados, pondo à prova a sua arte e coragem, pediam com mil recomendaçõeв е conselhos que não deixassem tresmalhar o gado, pois as crenças que dali adviriam, sabe Deus no que poderiam resultar!

E era neste ambiente que aquela massa de homens, cavalos e toiros entrava pelas ruas da povoação, numa euforia de cor, num turbilhão de pó!

E era assim, ao som de gritos, explosão de bombas e bater de latas; em atropelos, fugas e audácias sem limites, com os toiros, de olhar espavorido, agarrados à garupa dos cavalos em distâncias de palmo, ou encostados aos pacificos cabrestos, como a pedirem arrimo e protecção, que se percorriam, num entrechocar de cascos, de bufidos e pragas, aquelas centenas de metros que, se para muitos eram o supra-sumo do prazer, eram, para alguns, um calvário de angústias e sobressaltos.

Há festa em Vila Franca! É dia de espera. Vive-se aquilo que a tradição conserva e que o tempo ainda não apagou. As ruas abarrotam de gente.

Aqui, junto a um portal, um senhor respeitável, em que as décadas já deixaram traços, conta ao auditório que o cerca o que eram as esperas no seu tempo: Aquilo, sim, aquilo é que eram tempos! Daquela vez a arnica esgotou-se nas farmácias e as camas no hospital não chegaram para tanto ferido! Aquilo, sim; os toiros e as gentes tinham outra fibra, que hoje já se não vê!

E o auditório revê em mente, pelas descrições e fantasia do relator, aquela bela época que só a saudade faz lembrar e viver.

Noutro local combinam-se actuações, estabelecendo-se planos, enquanto que grupos de gente afoita aparentemente, claro está, pois ao primeiro rebate a maioria desaparecerá como por encanto passeia em jactâncias e alardes de quem está fadado para grandes empreendimentos.

O rapazio de pé leve e ares audaciosos, correndo em plena irreverência lança, por vezes, o pânico com gritos pré-anunciadores:

-𝐿𝑎́ 𝑣𝑒̂𝑚 𝑒𝑙𝑒𝑠, 𝑙𝑎́ 𝑣𝑒̂𝑚 𝑒𝑙𝑒𝑠!

Mulheres do campo endomingadas; meninas faceiras e arrebicadas, passam num ritmo de andamento que está longe do natural e, olhando para aqui, olhando para acolá, lá vão cheias da sua pessoa, de si próprias se admirando.

As tranqueiras que vedarão o percurso, que darão sossego aos que vêem a vida pelo gozo que ela pode dar e não pelos riscos que ela pode proporcionar, vergam ao peso de tanta gente que egoistamente se empurra e vocifera, ansiosa pelo começo do espectáculo.

Passa um campino a galope, pampilho ao alto, jaqueta a esvoaçar; então ouve-se dizer que os toiros já passaram a Ponte.

Lá para as bandas do Largo da Estação há gente a correr e, num ápice, enquanto o diabo esfrega um olho, metade ou mais do povo, daqueles que flanavam pelas ruas, desapareceu! Para onde foram as mulheres?

Transmutações que só uma lâmpada de Aladino seria capaz de conseguir.

𝑁𝑎̃𝑜, 𝑎𝑖𝑛𝑑𝑎 𝑛𝑎̃𝑜 𝑠𝑎̃𝑜 𝑜𝑠 𝑡𝑜𝑖𝑟𝑜𝑠!

E o vaivém prossegue, o barulho não cessa, o rapazio continua a correr, os timoratos, os cépticos e os que sinceramente reconhecem que o seu corpinho não velo ao Mundo, por obra de Deus, para ser estropiado e maltratado por um hastado, lá continuam pendurados nas tranqueiras ou encarrapitados nas janelas e as mulheres, as que ainda andam pelas ruas, caminham com passo cada vez mais rápido e desigual.

Assim se continua, assim se vive neste ritmo de febre, de incerteza e ansiedade até que... três morteiros sobem ao ar!

Três estoiros soam a anunciar a toda a gente que os toiros, cabrestos, campinos e cavaleiros abandonaram o campo e se dirigem para a vila..

Então, desta vez sempre é certo! Todo aquele povoléu se distribui por aqui e por ali, por esta porta, janela, recanto ou buraco; na rua só ficam os que nisso fazem ponto de fé, os que à noite, ao serão, dirão à familia e amigos que estiveram na espera de toiros, que os viram quase ao pé, quase a tocar-lhes, porque... estavam na rua!

Ficam também os de animo mais afoito, prontos a qualquer alarde ou temeridade, mas sempre fiados na porta que se abrirá, in extremis, no candeeiro ou poste telegráfico pelo qual, simiescamente, se trepará se as circunstâncias a tanto obrigarem.

E é de pasmar! também lá ficaram os medrosos, os incapazes de qualquer assomo ou bravata, mas que, por isso mesmo, por essa falha, lá ficaram e lá se aguentarão, sabe Deus como!

A vozearia é enorme, mas agora só se ouve, e com proeminência sobre todos os ruídos, um só grito: 𝐸𝑙𝑒𝑠 𝑎𝑖 𝑣𝑒̄𝑚, 𝑒𝑙𝑒𝑠 𝑎𝑖 𝑣𝑒̄𝑚!

De facto, atrás de uma massa de gente que corre, grita e gesticula, vislumbra-se a mancha policroma de coletes e barretes dos campinos, precedidos de uns tantos cavaleiros, Aquele aglomerado de homens e animais aproxima-se rapidamente, abafando com o chocalho dos cabrestos, bater de cascos, bufidos dos toiros e um ou outro grito de advertência dos campinos, o vozear daquela multidão ululante, ávida de viver, de gozar o espectáculo que se avizinha.

Aquilo por que todos anseiam, que há horas faz vibrar centenas senão milhares de pessoas em enervante espera, vai dar-se, está iminente.

Os toiros vinham soltos; propositadamente não houve o cuidado de os conduzir unidos, bem encabrestados e, assim, não foi preciso muita habilidade, nem fol trabalho difícil a um ou mais valentões, daqueles muitos que por ali andam, citar um toiro e sacá-lo dos restantes.

-𝐻𝑎́ 𝑓𝑒𝑠𝑡𝑎 𝑒𝑚 𝑉𝑖𝑙𝑎 𝐹𝑟𝑎𝑛𝑐𝑎!

Lá vem um, moço ainda imberbe, pés descalços, pois assim menos possibilidades tem de cair, escorregando. Lá vem, ar resoluto, boca crispada. Nas mãos segura uma velha saca de linhagem que em tempos teria servido para qualquer coisa e hoje é trapo esburacado, quase sem préstimo. Lá vai, lá se acerca da fera que o contempla entre surpresa e indecisa perante tanta audácia. Atrás, a distância razoável, outros valentes se aproximam fazendo ondular hipotéticos capotes que mais parecem roupa batida pelo vento.

O toiro, espantado por tanto grito, tanto incitamento, escava o chão, hesita: ora fixa o audacioso, ora se distraí para a direita e para a esquerda, em busca de adversário.

Por fim -pois aquilo tem que ter uma solução, como tudo na vida-arremete de cabeça baixa, olhar chamejante, pleno de fúria, contra o que mais perto está e que com tanta galhardia o está provocando.

O toiro passa, pois o cartistas, com mais ou menos habilidade, com mais ou menos presteza, là o embebeu no trapo, saindo, conforme påde e Deus quis, daquele passe que mesmo ao melhor entendido seria dificil de classificar. Os outros, a chusma de actuantes, colaboradores e espectadores mais resolutos, movimentam-se em vários sentidos: uns fugindo em busca de salvação: outros, aqueles em quem o pundonor obriga, foram para trás dos valentes, enquanto que estes procuram levar o toiro a investir de novo.

E a brincadeira continu1a até que o animal, levado por uma crença ou atraído por outros que de longe lhe gritam e acenam, deixa aquele campo de luta, arrastando atrás de si uma multidão de entusiastas que berra e apupa.

Lá mais adiante um outro toiro também foi tresmalhado. 𝐸𝑠𝑡𝑒 𝑡𝑜𝑖𝑟𝑜 𝑙𝑖𝑛𝑑𝑜! - bravo e codicioso.

Há clareiras nos actuantes. Só os mais afoitos, os que estão senhores de si, das suas possibilidades, se atrevem a enfrentá-lo.

Lá vai ele, lá vai no encalce de um ousado que se aproximou demasiado: parece que o vai pegar, já baixou a cabeça para marrar!

— 𝐼ℎ! 𝑞𝑢𝑒 𝑠𝑜𝑟𝑡𝑒!?

Não, o rapaz é ágil e sabe da função; quarteou-se como os melhores!

O toiro, como o vulto lhe fugisse, tem uma, pequena hesitação, muito curta, pois quase sem abrandar continua em corrida. Tudo foge, tudo debanda.

—𝑀𝑎𝑠 𝑜 𝑞𝑢𝑒 𝑒́ 𝑎𝑞𝑢𝑖𝑙𝑜?

Das tranqueiras gritaram-lhe e o animal, pleno da sua força, animado de uma bravura indómita, investe com aquela mole de tábuas onde homens, mulheres e crianças se encarrapitam em prodígios de equilíbrio.

Para os que estão da banda de lá, há a garantia do tabuado que é forte; mas, para os outros, para os que estão da banda de cá, sem protecção, o que lhes ira suceder?

Só há duas alternativas: aguentar ou tentar a fuga e, na impossibilidade desta última, que se vê então?

Um pandemónio de corpos que amarinham ou que se estendem no chão, quais lebres na cama, em vibrações de tremura que nem vime açoitado pelo vento; corpos que gatinham em reminiscências de tempos idos e ainda os que gritam e barafustam porque alguns mala dextros e egoistas os atropelaram e espezinharam, na ansia do salve-se quem puder!

Por fim, de tudo isto, haverá duas ou três costelas partidas, três ou quatro cabeças a precisarem de pontos e um toiro cansado de tanto marrar, que cheio de nobreza abandonará esta amalgama para, acedendo a novos apelos, ir acometer outros bravos que o citam e desafiam. E é assim, meus senhores, nesta toada de alegria e coragem, não de todo despida do seu ar quichotesco, roçando a tragédia, que o bom povo se expande e diverte na castiça Via Franca de Xira, terra de Toiros, Sol e Campinos."


𝐷𝑜 𝑙𝑖𝑣𝑟𝑜 «𝐵𝑢𝑙𝑙𝑓𝑖𝑔ℎ𝑡𝑖𝑛𝑔 𝑖𝑛 𝑃𝑜𝑟𝑡𝑢𝑔𝑎𝑙» 𝐴𝑢𝑡𝑜𝑟: 𝐽𝑜𝑟𝑔𝑒 𝐹𝑒𝑟𝑟𝑒𝑖𝑟𝑎

𝐸𝑑𝑖𝑡𝑜𝑟𝑎: 𝑆ℎ𝑒𝑙𝑙 𝑃𝑜𝑟𝑡𝑢𝑔𝑢𝑒𝑠𝑎, 𝑆.𝐴.𝑅.𝐿. - 𝐴𝑛𝑜: 1959 (?)

𝐼𝑚𝑎𝑔𝑒𝑚: 𝑉𝑖𝑑𝑎 𝑅𝑖𝑏𝑎𝑡𝑒𝑗𝑎𝑛𝑎

largadas touros antigas colete encarnado
Largadas de touros do Colete Encarnado de 1943
Praca de Touros Palha Blanco, Vila Franca De Xira

As largadas de antigamente eram bastante diferentes das atuais.

Observa-se uma presença reduzida de barreiras de proteção e um ambiente muito mais espontâneo, refletindo uma época em que as normas de segurança eram menos exigentes.

Apesar disso, os campinos mantinham sempre um papel fundamental no controlo dos animais.


"O Monte (𝟏𝟗𝟒𝟑)

Alguns vilafranquenses — como eu — devem ainda lembrar-se do 𝑀𝑜𝑛𝑡𝑒 (monte que existe ainda do lado norte da actual praça de touros). Para ali, e para gosar os espectáculos taurinos, e bem fornidos de apetitosos farneis, iam muitos aficionados e suas famílias, a troco de pequena espórtula.


De lá se assistia — e quási bem — a tôdas as fases das corridas. As três praças de madeira a que vimos de nos referir eram abertas para êsse lado 𝑂 𝑀𝑜𝑛𝑡𝑒 era receita certa com que as emprêsas sempre contavam. Havia, nessas praças, uma vedação, um muro com dois metros, pouco mais ou menos, , de altura, junto à Estrada Nacional. da mesma estrada de hoje. Todo o interior da praça ficava, assim, a descoberto para o lado do tradicional 𝑀𝑜𝑛𝑡𝑒, onde tanta alegria, tanto entusiasmo e... tanto vinho correram!


Eu tenho saüdades do 𝑀𝑜𝑛𝑡𝑒, daquele povo bom e alegre que lá se juntava aos cardumes, do colorido berrante dos trajos das mulheres, das lindas raparigas que lá íam, dos namoros que lá se arranjavam, dos deliciosos pasteis que os pasteleiros locais e de várias procedências lá vendiam, daquele ambiente festivo que a minha alma recorda com infinita saüdade."

Vida Ribatejana Especial Natal em 1943


1961 colete encarnado
1961 - Colete Encarnado de Vila Franca de Xira
Largada de Toiros nas ruas de VFX


largada toiros vila franca
1966 - Largada de toiros no Largo 5 de Outubro (praça de toiros)
Festa do Colete Encarnado em Vila Franca de Xira


fotos antigas colete encarnado
1969 - Festas do Colete Encarnado - Vida Ribatejana nº1475, 25 Junho 1949


1965 - Festas do Colete Encarnado
Capa da Revista, Vida Ribatejana de 1965


1947 - Festa do Colete Encarnado - Foto: Álvaro Campeão


1943 - Touro atravessou a linha férrea em perseguição de um popular durante as Festas do Colete Encarnado (Vila Franca de Xira, 1943)

Fonte: Vida Ribatejana. N.º 1101-1112 (10/07/1943).
Autoria: Joaquim da Silva Pinheiro
Procedência: Divisão de Bibliotecas e Arquivo de Vila Franca de Xira


1943 - Largada de touros por ocasião das Festas do Colete Encarnado em Vila Franca de Xira (1943)

Fonte: Vida Ribatejana. N.º 1101-1112 (10/07/1943)
Autoria: Joaquim da Silva Pinheiro
Procedência: Divisão de Bibliotecas e Arquivo de Vila Franca de Xira

colete encarnado antigamente

1950 !? - Fotografia: Largada de Touros junto á Praça Touros Palha Blanco com antiga fabrica do arroz ao fundo. (Não é conhecido o ano, mas por volta de 1950 !! )



Fotografia 4 - O público nas varandas


Varandas ornamentadas Colete Encarnado
Janelas e Varandas ornamentadas, Festa do Colete Encarnado VFX
Ano: 1947: Autoria: Álvaro Campeão


publico nas varandas largadas de touros colete encarnado
Ano ? Público nas varandas em Vila Franca de Xira

1965 - Largadas de touros, Colete Encarnado de 1965

Antes da existência de bancadas modernas e de transmissões televisivas, as varandas eram os melhores lugares para assistir à festa.

É impressionante observar o número de pessoas reunidas para acompanhar a passagem dos touros e dos campinos.

Esta imagem demonstra bem a importância que o Colete Encarnado já tinha junto da população local.

1966, Vida Ribatejana - Largada de toiros, Colete Encarnado

É possivel verificar na foto acima, ruas, varandas e janelas das casas cheias de pessoas a assistir


1967 ? - Cartaz do Colete Encarnado de 1968 com fotografia já registada de outro (s) anos anteriores



Fotografia 5 - O campino em pleno trabalho


fotos antigas campinos

𝑆𝑜𝑢𝑠𝑎 𝐶𝑜𝑠𝑡𝑎, 𝑉𝑖𝑑𝑎 𝑅𝑖𝑏𝑎𝑡𝑒𝑗𝑎𝑛𝑎 𝐸𝑠𝑝𝑒𝑐𝑖𝑎𝑙 1939


Muito para além da festa, esta fotografia mostra o verdadeiro trabalho do campino nas lezírias.

O domínio do cavalo, a utilização do pampilho e o conhecimento do comportamento do gado eram competências adquiridas ao longo de muitos anos de experiência.

Sem os campinos, dificilmente existiria a tradição que hoje conhecemos.

"Relembremos. Relembrar o episódio sensacional da condução dos novilhos bravos ao exame elementar da «tenta», neste dia de «ferra», afigura-se-me indispensável. Sôbre o fundo bárbaro e empolgante do estranho espectáculo, ressalta melhor o quadro vivo da «derriba» de garraio insubmisso em desabalada carreira.

Recordemos: os examinandos largam de refeitório, com os seus verdes convidativos, para as provas do curral, entre a chocalhada do jogo de «cabrestos», fundidos na manada, a berra dos campinos, de «pampilhos» em riste, o alarido dos aficionados, em ginetes passantes, e a auréola de poeira, esbrazcada pelo sol.


E à testa da massa hibrida, movediça e confusa, em que formas e atitudes mal se definem, rezes, campinos e senhores da cidade esfumados na bruma faúlhante, galopa o maioral de gado.

Rêzes e cavaleiros enfiam à «manga» - avenida ladeada de muros palissados de giestas, que conduz os examinandos do ar livre da campina à pista circular da escola. E quando tudo isto, sob a canícula da lezíria, atinge o longo corredor, os gritos redobram, a arrancada recrudesce, os chocalhos dão o dó de peito, os novilhos galopam na ponta da unha. Eh Eh Eh!- brada a côro alucinado dos cavaleiros na embriaguês da corrida, os peões especados nos muros da manga a reforçarem os naipes de satânico coral.


A terra treme. O ar vibra. Os olhos coruscam. As faces resplandecem. As bocas escancaram-se em gritos apopléticos. Os braços agitam se em gestos de delirio.

De súbito, quasi ao cima da manga, de empastelamento confuso de racionais e irracionais, destacam-se dois garraios espavoridos, que saltam o muro, espantando os mirones, na dextra agilidade de gamos perseguidos na caça.

Há uma pausa de indecisão na balburdia da cavalhada.


Mas logo se refaz o ritmo de movimentos e vozes. E emquanto a vanguarda de campinos e aficionados, com o grosso da manada mete a praça rústica, o proprietário da herdade, José Estevam, seguido pelo feitor, Diogo Picada, as esporas mordendo o ventre dos cavalos, os pampihos no geito de lanças em algaras belicosas, arrancam para a campo em perseguição dos rebeldes. Um dêles, o menor de corpo e à certa menor de idade, negro de hulha, no brilho da pelagem parece borrifado de verniz. Sôbre os olhos em brada estampa-se-lhe uma estrêla de neve. E êste, como se de repente se envergonhasse de fugir à obrigação, cem metros andados, queda-se, intobliza-se, à beira dum pinhal novo, carapinha de bronze sôbre o verde tenro das pastagens.


Ao seu encontro correm dez moços de pé, «maiorais», «ajudas» e curiosos, que se aproximam do cábula, sem cerimónias, dispostos a reconduzi-lo à escola.

Esta gente do Ribatejo, nada e criada na lezíria, desde o berço habituada a ver gado bravo cara a cara, ombro a ombro, brinca com toiros em pontas como as crianças com feras de cartolina. Um toiro tresmalhado, - para nós, os de fora de portas - é caso grave de vida ou de morte. Para êles, não passa de inofensivo brinquedo. Nós, na presença dum desses brutos, armados do seu par de punhais, morremos de susto, se não podemos fugir a sete pés.


O ribatejano, não senhor. Se descobre boi bravo no seu caminho, todo êle vibra no jubilo des achados felizes. E sem demora. planta-se-lhe à frente, desafia-o à luta, no prazer de o pegar de cara, na arremetida entalado a meio des galhos perfurantes e abraçado à gorja barbelada. E se não se atreve à pega de cara, em atenção ao grande poder do animal, pega-o de «cernelha»

ou rebeja-o com tal mestria, furtando o corpo no castigo mortal da parelha de coices, que o obriga pelo menos a moderar no combate os impetos ferozes.

É o que fazem serviçais e curioses ao garraio negro, junto do pinhal. O mais audaz de todos, rapazola tisnado pelo sol e trajudo à moda ribatejana, cresce para o cabula. E o cabula, baixando a cabeça, a garupa voltada para os pinheiros, ameaçador, põe-se a resfolgar fundo e a escarvar o solo. -Eh! garraio! -cita o destemido, batendo as palmas, a dez passos, se tanto, do figuráo.


Provocado nos seus brios de valente, o bicho dilata as narinas, faz-se ao vulto, cai a fundo sobre o provocador. O destemido, porém, olhos fitos nas pontas limpas, em vez de aparar a marrada, da-lhe terra e salta lhe à cabeça, o ventre acomodado entre as santas finca-se-lhe ao pescoço, cingindo num abraço.

De cá, de ao pé da casa senhorial, os que seguem o desenrolar do feito, aplaudem-no com uma salva de palmas. E os camaradas do pegador arremessam-se contra a fera, submetendo-a.

Em seguida, no intuito de a levar à obrigação quantas vezes a mài dolorida faz o mesmo aо filho contamaz na cabulice! - lançam-lhe uma corda à cabeça. E é digno de reparo este aspecto da cerimónia: -a rès bovina, a mais feroz, ao sentir-se presa pelos galhos, as suas armas de defesa, deixa de arremeter, entra a recuar, no esforço de soltar as armas da prisão. Por isso, os quatro servos da gleba ribatejana e cinco curiosos das redondesas, pinha hirsuta de jalecas e grenhas envolvendo o filho da selva, obrigam-no a voltar-se de frente para o pinhal, aproveitando-lhe movimento de recúo voluntário para o conduzir à almadas amigas nos flancos nédios.


Á mesma hora, no razo anil da campina, o outro tresmalhado, e outro rebelde, já quasi na corpulència de toiro adulto, pelagem castanha que o sol aquece de tons doirados, nu sua larga correria, agora sentido transversal relativamente ao lugar dos espectadores, oferece-nos espectaculo dos que a retina fixa e a memória guarda para sempre.

No começo da fuga havia endireitado às bordas do Tejo. Apanhado de través pelos perseguidores, em terreno pouco adequado a provas de velocidade, tornejára à direita e largára a bater o solo em rumo opôsto.

Dir-se-ia uma derivante concertada com alguém de nosso lado, para que nós, os hospedes da herdade, noviços na liturgia do ritual, melhor pudessemos gozar a representação do drama imprevisto. O sol flameja no céu azul, donde a onde embaciado de núvens. A luz dança no ar a ronda estonteante da tremulina. A terra exala bafos torridos de fornalha. Os insectos, de côres vivas, voejando baixo, lembram faûthas de incêndio: -cearas e pastagens a ondularem, no perto e no longe, a arrepiarem-se sob a ardência da aragem, na junção de labaredas. E os três vultos da cena grande, o garraio e desunhar-se a meio dos cavalos, lembram um friso evocativo das velhas montarias reais.


Visto na distância, fera e monteiras, convencemo-nos de que os quadrupedes razam o solo com o ventre na distenção da galopada. Mal se lhes aproveitam linhas perpendiculares-nem sequer as dos humanos nas montadas, éles próprios quebrados sõbre as selas, dobrados sobre os cavalos. Os cavalos, êsses, pescoço distendido ao máximo, as pernas da frente flectidas em ângulo agudo, as de traz espirrando poeira, afigura-se-nos que vão suspensos no ar, em horizontalidade com a terra. E o fugitivo, cabeça entre as pernas dianteiras, cauda alçada sôbre as trazeiras, lembra um touro de «carroussel» na vertigem da rotação.

O grupo emocionante funde-se na tinta glauca da campina, por pouco não perde o relêvo da chapa esbrazeada dos pousios. Pelo ramo tomado e pela ligeireza da corrida a andarilho está daquí a nada no vasto chaparral que limita o horizonte, ao sul - massa cerrada de sobreiros de tenra idade em que será dificil cortar-lhe a marcha. Pelo que, os dois campinos, a um sinal convencionado, resolvem derriba-lo, travando-the os movimentos, forçando-o a mudar de ramo. Então, o campino da esquerda, o Diogo da Picada, alça a carapuça, agitando-a no ar, gritando a plenos pulmões: -Eh garraio! Eh garraio!

O animal, alucinado pelo calor e pela perseguição, ouve a voz de desafio, enxerga o relampago do trupo excitante, e carrega sôbre o cavalo, no fito de o colher de flanco. O cavaleiro da direita, alérta contra o golpe previsto, não lhe da tempo a atingir o alvo.


O pampilho no sovaco, as rédeas soltas, apenas o garraio, torcendo a cabeça, forma o salto de leão, joga-lhe golpe certeiro à ilharga, cravando-lhe a choupa sôbre o sovaco. E a fera, apanhada em cheio, em vez de cair sobre o cavalo, torce-se de dor e tomba de focinho no chão. O passo sensacional ocorre longe, a trezentos, a quatro centos metros de distância, No entanto, como se os dextros combatentes pudessem ouvir-nos, nós, esquecidos de que a imensidade da campina sorve o som como o areal sorve a água - clamamos, sacudidos pelo entusiasmo: Bravo! Bravo!

Temos a sensação de cena remota, na Assíria ou Pérsia, os países dos fortes quadros animalistas, vivida à luz sugestionante do Cinema. O garraio afocinha no solo e levanta-se logo. De pé, no terreno livre e dilatado, encontra pela frente a espalda dos cavaleiros, quedos e mudos, de «pampilhos» apontados à cabeça. Ainda dorido da choupada no flanco, ainda atordoado da queda no chão, como lhe não espertem os impulsos para o ataque, volta a cauda aos perseguidores e arremete de novo à desfilada. Mas agora, porque o golpe lhe dificulta a marcha, porque os cavaleiros the ensinam o caminho, lá se deixa conduzir à escola, submetido à lei do vencedor.

Bamboleando a cabeça, vai indiferente aos acólitos. E cansado, luzente de suor, olhos mortiços, um fio de sangue a manchar the o pêlo, o garraio da entrada no curral, onde em breve, com os irmãos de pasto e raça, prestará as provas elementares da tentana que corresponde o diploma da «ferra»."

𝑆𝑜𝑢𝑠𝑎 𝐶𝑜𝑠𝑡𝑎, 𝑉𝑖𝑑𝑎 𝑅𝑖𝑏𝑎𝑡𝑒𝑗𝑎𝑛𝑎 𝐸𝑠𝑝𝑒𝑐𝑖𝑎𝑙 1939


1945 - Campinos no campo, 5 Outubro 1945



Fotografia 6 - Os cartazes antigos


Aqui ficam alguns cartazes antigos. Se deseja ver todos os cartazes, clique na aba, subtitulos, Cartazes no menu do site.


1934 Caratz do Colete Encarnado


1941 Cartaz do Colete Encarnado


1947 Cartaz do Colete Encarnado


1948 Cartão de Livre Transito para pessoal do staff


1956 Cartaz do Colete Encarnado


1959 Cartaz do Colete Encarnado


1980 Cartaz Colete Encarnado


1991 Cartaz Colete Encarnado


2017 Cartaz Colete Encarnado

Os primeiros cartazes eram verdadeiras obras de arte. Além de anunciarem a festa, representam hoje importantes documentos históricos que permitem acompanhar a evolução da imagem do Colete Encarnado ao longo das décadas.

Cada cartaz conta um pouco da história da sua época.



Fotografia 7 - As tertúlias


Tertulia: O Touril. Fundada em 1977


Tertúlia: O Touril. A Tertúlia "O Touril" nasceu da amizade e da paixão pela Festa Brava de um grupo de vila-franquenses que se reunia na antiga taberna "14 e 8". O desejo de criar um espaço próprio de convívio levou à instalação da tertúlia na Travessa da Lourença, onde foi recriado um ambiente inspirado na Praça de Toiros Palha Blanco, tornando-se uma referência da cultura tauromáquica local. Ao longo dos anos, "O Touril" assumiu um papel de destaque nas celebrações do Colete Encarnado, reunindo gerações de aficionados e amigos. Apesar das dificuldades e da perda de alguns dos seus fundadores, a dedicação dos sócios permitiu manter viva esta casa e o seu legado. Hoje, num novo espaço, "O Touril" continua a preservar as suas tradições, promovendo o convívio, a amizade e a identidade tauromáquica de Vila Franca de Xira.

1999 - Almoço de Homenagem aos Antigos Bandarilheiros de Vila Franca na Tertúlia "O Garraio"...

2018 Tertúlia "O Campino" fundada em 1977
Interior decorado com muitos elementos da festa brava, e muitas fotografias

2011 - Tertúlia "A Charrua" – fundada em 10 de novembro de 1979

2011 - Tertúlia "A Charrua" – fundada em 10 de novembro de 1979
" O Canto das mentiras"

218 - A Tertúlia / Grupo Aficionado "Os Farras" foi fundada em julho de 1990.


2015 - Tertúlia Cirófila Homenageia o campino Canário junto ao Monumento ao Campino em VFX no seu 90º Aniversário

Tertúlia cirofila
2015 - Tertúlia Cirófila. Almoço de convívio

Ano ?  Tertúlia, Os amigos do Muro

2014 Tertúlia, Os amigos do Muro. Colete Encarnado

2014 Tertúlia, Os amigos do Muro. Convívio.

2014 Tertúlia Os amigos do Muro
Festa animado no interior da tertúlia

Fadista canta e encanta na Tertúlia Zás e Vira

2024 - Tertúlia Palha Blanco. Vésperas de Colete Encarnado

Tertúlia, local de convívio sobe o tema, tauromaquia

2024 - Tertúlia Naturales. Vésperas de Colete Encarnado

Nas tertúlias também se canta o fado

2023 - Tertúlia a Lezíria. Almoço para Colete Encarnado

Aqui, cada canto é recordado para sempre, tertúlia Rambóia

Tertulias local de almoços, jantares, convivio

As tertúlias são muito mais do que locais de convívio.

Ao longo dos anos transformaram-se em espaços onde se preservam tradições, histórias, gastronomia e amizades, desempenhando um papel essencial no ambiente único da festa.



Fotografia 8 - O Colete Encarnado na atualidade


2026 Cartaz do Colete Encarnado

Largada de touros - Foto: João Campos

Colete Encarnado - Foto: João Campos

Largada de touros - Foto: João Campos

Corrida de Campinos - Foto: João Campos

Largada de touros - Foto: João Campos

Corrida de Campinos - Foto: João Campos

Largada de touros - Foto: João Campos

Corrida de campinos - Foto: João Campos

Largada touros - Foto: João Campos

Largada de touros na Estação - Foto: CEVFX 2026

Largada de touros na Estação - Foto: CEVFX 2026

Desfile de tertúlias Desfile das tertúlias - Colete Encarnado - Foto: CEVFX 2026

Desfile de tertúlias Desfile das tertúlias - Colete Encarnado - Foto: CEVFX 2026

Sevilhanas. com, grupo de dança de Vila Franca de Xira - Colete 2026

Gentes de Vila Franca com o Presidente da Câmara, Sr. Fernando Paulo

Gentes de Vila Franca de Xira

Desfile das tertúlias - Colete encarnado - Foto: CEVFX 2026

Desfile das tertúlias - Colete encarnado - Foto: CEVFX 2026

Orquestra Filarmónica no Largo da Câmara - Foto: CEVFX 2026

Homenagem ao campino - Colete Encarnado 2026

Campinos - Foto: CEVFX 2026

Campinos, Colete Encarnado - Foto: CEVFX 2026

Rua 1º Dezembro - Foto: CEVFX 2026

2026 Montadas tranqueira e bancadas, e chão da rua com areia. Foto: CEVFX 2026

2026 Flamenco no Largo da Camara - A Caminho do Colete 2026

2026 - Visão das tranqueiras e Praça Palha Blanco. Foto: CEVFX 2026

Muitas mais fotografias actuais da Festa do Colete Encarnado em VFX na nossa página no Facebook: Colete Encarnado VFX.  AQUI  

Comparando estaS fotografia com as mais antigas, percebe-se facilmente a evolução da festa.

Hoje existe uma organização muito mais complexa, maior segurança, milhares de visitantes e uma programação bastante diversificada espalhada pela cidade.

Apesar disso, os elementos fundamentais permanecem exatamente os mesmos: o campino, o cavalo, o touro bravo e a identidade ribatejana.


O valor das fotografias históricas


As fotografias antigas ajudam-nos a preservar a memória coletiva de Vila Franca de Xira.

Cada imagem documenta pessoas, edifícios, tradições e momentos que fazem parte da história local. Muitas das paisagens retratadas já desapareceram ou transformaram-se profundamente, tornando estas fotografias um património de enorme valor histórico.


Ao observar estas imagens, percebemos que a Festa do Colete Encarnado evoluiu ao longo do tempo, mas nunca perdeu aquilo que a distingue: a homenagem aos campinos e o orgulho nas tradições do Ribatejo.

Rua Almirante Cândido Reis em dia de Colete Encarnado, antes da implementação da Republica


As fotografias antigas do Colete Encarnado são verdadeiras janelas para o passado. Mais do que simples recordações, permitem compreender a evolução da festa, a transformação da cidade e a forma como sucessivas gerações mantiveram vivas as tradições ribatejanas.


Preservar e divulgar este património fotográfico é também preservar a história de Vila Franca de Xira. Cada fotografia conta uma história e ajuda a garantir que a memória da Festa do Colete Encarnado VFX continue a inspirar as gerações futuras.

O que você achou deste artigo? ⭐⭐⭐⭐⭐

Comentários

Colete Encarnado VFX 2027

Colete Encarnado 2027

🔴 Comente, a sua opinião é importante! 🔴

◉ Respeite a diversidade de ideias sem perder a sua !