Poucas figuras representam tão bem a identidade do Ribatejo como o campino. Com o seu colete encarnado, barrete verde, calças de astracã e a longa vara na mão, tornou-se um símbolo da cultura portuguesa. Mas a história dos campinos vai muito além da imagem tradicional: é uma história de coragem, dedicação, conhecimento da natureza e profunda ligação ao cavalo e ao touro bravo.
Ao longo de séculos, os campinos foram responsáveis por conduzir, guardar e tratar os rebanhos de gado bravo nas vastas lezírias do Tejo, desempenhando um papel essencial na economia agrícola da região.
Quem eram os campinos?
Os campinos são trabalhadores rurais especializados na condução de gado bovino, sobretudo touros bravos. A sua principal missão consistia em vigiar os animais nas lezírias, conduzi-los entre pastagens e encaminhá-los para feiras, ganadarias e praças de touros.
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o campino não era apenas um cavaleiro. Era também um profundo conhecedor do comportamento do gado, das cheias do rio Tejo, das pastagens e dos ciclos agrícolas.
A origem dos campinos
A origem dos campinos remonta à Idade Média, quando o vale do Tejo começou a desenvolver uma importante atividade pecuária.
As férteis lezírias proporcionavam excelentes condições para a criação de bovinos e cavalos, exigindo trabalhadores experientes capazes de controlar grandes manadas em terrenos frequentemente inundáveis.
Ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII, a profissão consolidou-se com o crescimento das grandes herdades ribatejanas, especialmente nas zonas de Vila Franca de Xira, Benavente, Salvaterra de Magos, Samora Correia, Azambuja e Santarém.
Porque utilizavam uma vara tão comprida?
O famoso pampilho, uma vara que pode ultrapassar quatro metros de comprimento, é talvez o objeto mais emblemático do campino. Este não servia apenas para conduzir os animais.
Era utilizado para:
• Orientar os touros à distância;
• Afastar animais mais agressivos;
• Ajudar nas travessias de zonas alagadas;
• Abrir caminho entre a vegetação;
• Servir de apoio durante longas jornadas.
O domínio do pampilho exigia anos de experiência.
O traje tradicional
O traje do campino tornou-se um dos símbolos nacionais. Cada peça tinha uma função prática.
Entre os seus elementos destacam-se:
• barrete verde;
• camisa branca;
• colete encarnado;
• faixa vermelha;
• calças de astracã;
• meias brancas;
• botas de cabedal.
Embora hoje seja visto como traje festivo, nasceu para responder às exigências do trabalho diário nas lezírias.
A relação entre o campino e o cavalo
O cavalo era o maior companheiro do campino. Grande parte do trabalho era realizada a cavalo, permitindo controlar centenas de cabeças de gado em terrenos difíceis. O cavalo lusitano revelou-se especialmente adequado devido à sua agilidade, coragem e capacidade de resposta perante o gado bravo.
O campino e o touro bravo
O trabalho exigia enorme coragem. Os campinos conviviam diariamente com animais de grande porte e comportamento imprevisível. Conheciam cada touro praticamente pelo comportamento, conseguindo antecipar reações apenas pela postura ou pelo olhar do animal. Essa experiência era transmitida de geração em geração.
Vila Franca de Xira: a capital dos campinos
Nenhuma localidade está tão ligada aos campinos como Vila Franca de Xira. Todos os anos, durante a Festa do Colete Encarnado, centenas de campinos desfilam pelas ruas da cidade, preservando uma tradição iniciada em 1932.
Hoje, o desfile representa um dos momentos mais emblemáticos da festa, reunindo participantes de diversas ganadarias ribatejanas.
A profissão ao longo do século XX
Durante grande parte do século XX, milhares de campinos trabalharam diariamente nas lezírias.
Com a mecanização agrícola e a redução das grandes explorações pecuárias, o número de profissionais diminuiu significativamente.
Apesar disso, várias ganadarias continuam a manter viva esta profissão, preservando técnicas e tradições centenárias.
Os campinos na atualidade
Atualmente, os campinos continuam a desempenhar funções importantes nas ganadarias de touros bravos.
Além do trabalho agrícola, tornaram-se também embaixadores da cultura ribatejana, participando em:
• festas tradicionais;
• desfiles;
• romarias;
• demonstrações equestres;
• eventos turísticos;
• iniciativas culturais.
O seu traje é hoje reconhecido como um dos maiores símbolos do património cultural português.
Curiosidades sobre os campinos
A palavra "campino" deriva de "campo", refletindo a sua ligação ao trabalho rural.
O pampilho pode ultrapassar os quatro metros de comprimento.
O traje tradicional foi concebido para facilitar o trabalho nas lezírias.
Muitos campinos aprendiam o ofício desde crianças, acompanhando os pais nas herdades.
Vila Franca de Xira é considerada a capital do campino e uma das principais referências desta tradição em Portugal.
O Campino nas Festas do Colete Encarndo
Os campinos são a alma e o maior símbolo da Festa do Colete Encarnado, realizada anualmente em Vila Franca de Xira. Desde a primeira edição, em 1932, esta celebração foi criada precisamente para homenagear estes homens da lezíria, reconhecendo o seu trabalho na condução do gado bravo e a sua importância para a identidade ribatejana.
Durante os três dias de festa, centenas de campinos, vindos de diversas ganadarias do Ribatejo, desfilam pelas ruas da cidade montados nos seus cavalos e envergando o traje tradicional: barrete verde, camisa branca, colete encarnado, faixa vermelha, calças azuis e o inseparável pampilho, símbolo da sua profissão. O desfile constitui um dos momentos mais aguardados pelos milhares de visitantes que todos os anos acorrem a Vila Franca de Xira.
Outro dos momentos mais emblemáticos é a entrega do Pampilho de Honra, uma distinção atribuída a um campino que se destacou pela sua dedicação à profissão e pela preservação das tradições ribatejanas. Esta homenagem representa o reconhecimento público de uma vida dedicada ao campo e ao gado bravo.
Os campinos desempenham ainda um papel essencial nas tradicionais esperas e largadas de touros, conduzindo as manadas desde as lezírias até ao centro da cidade. A sua experiência, perícia e profundo conhecimento do comportamento dos animais são fundamentais para que estas tradições decorram em segurança e mantenham a autenticidade que caracteriza a festa.
Mais do que protagonistas de uma festa, os campinos representam um património vivo de Vila Franca de Xira e do Ribatejo. A sua presença no Colete Encarnado simboliza o orgulho de uma região que continua a valorizar as suas raízes, homenageando uma profissão que marcou a história, a cultura e a identidade ribatejana durante gerações.
Video da RTP: Campinos do Ribatejo 1972
Resumo Analitico: "Vista em movimento de campo e propriedade no Ribatejo e de campino a cavalo; gado bovino (touros) a pastar orientado por campinos a cavalo; campinos a pé dirigem-se para os touros; campinos sobem para cima de cavalos e caminham a pé por localidade. 07m44: Excerto do filme "Um Homem do Ribatejo" de 1946 realizado por Henrique Campos e protagonizado por Barreto Poeira, Eunice Muñoz e Linda Maria. 18m18: Campinos a cavalo conduzem touros até estrutura de madeira, onde os separam com recurso a bastão (pampilho); populares assistem e correm em direção aos campinos que conduzem os touros e à pega de touros realizada em localidade. 34m48: Tourada realizada em Praça de Touros com as exibições de toureiros, cavaleiros, forcados e campinos a conduzirem os touros no final."
A história dos campinos confunde-se com a própria história do Ribatejo. Durante séculos, estes homens desempenharam um papel fundamental na criação de gado bravo e na preservação das tradições agrícolas das lezírias do Tejo.
Hoje, embora o seu número seja reduzido, continuam a ser um símbolo vivo da identidade ribatejana. A sua coragem, o domínio do cavalo, a perícia com o pampilho e a ligação à terra fazem dos campinos uma das figuras mais emblemáticas do património cultural português, mantendo viva uma tradição que atravessa gerações e continua a ser celebrada em eventos como a Festa do Colete Encarnado.
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